quinta-feira, 13 de abril de 2017

Iporinchê: Cabelo, cultura e consciência

Esquerda para direita: Rosália Lemos, Maria Ceiça, Lelete Couto, Ediléa Silvério, Nanci Rosa, Ruth Pinheiro, Márcia Ferreira, Iléa Ferraz. Sentadas, Cássia Marinho, Tia Maria do Jongo da Serrinha e Marielle Franco.

Eliana Alves Cruz
Fotos: Nilce Fornasier

 

Na infância, a palavra ‘quilombo’, por conta da forma como eram retratados estes lugares pela escola e pela mídia, sempre me levava para as palavras fuga, esconderijo, medo, sobressalto, precariedade. Isso quando não remetia sem escalas a invasão, captura e tortura. Apenas muito mais tarde ela me conduziu para a ideia de “coragem”, “união”, “resistência” e, principalmente, que esses locais não ficaram perdidos num passado doloroso marcado pela incessante busca por liberdade, mas que existem ainda hoje e podem ser identificados em todos os espaços em que a valorização das questões do negro no Brasil é uma pauta principal.


Outro olhar no espelho


O salão de belezas Iporinchê – uma forma aportuguesada de unir as expressões iorubanas Ipo (lugar), Ori (cabeça) e N’Se (fazer) – é um quilombo moderno. Encravado no coração do bairro carioca da Tijuca, ele faz a cabeça de muita gente boa. Ninguém sai da sala no sétimo andar da galeria Marapuama, na Praça Saenz Pena, sem uma foto, sem ter sua imagem postada em todas as redes do salão. Autoestima é o lema do lugar.

Quem conhece o Rio de Janeiro sabe que a Tijuca é um bairro agradável e familiar, porém talvez seja um dos lugares cariocas onde as tensões sociais mais se verificam. Cercado por morros como Salgueiro, Boréu, Casa Branca e muitos outros, o choque entre a favela e a população de classe média é constante. Tudo isso sem contar o fato de que toma conta de quase dois quarteirões do bairro o famoso quartel da Barão de Mesquita, onde foram encarcerados militantes de peso na época da ditadura militar, entre eles, ex-presidenta Dilma Rousseff.

Um salão afro na Tijuca é resistência e é quilombo, certamente! 

Estava lá dia desses quando uma nova cliente entrou ávida por saber como poderia começar a usar os cabelos naturais. Acompanhei de longe a conversa, que terminou com a frase-resumo: “Tudo é uma questão de você ter um novo olhar sobre você”.

- Toda vez que um cliente chega e senta na minha cadeira, a primeira coisa que eu faço é elogiar o cabelo.Coisas que não estão acostumados a ouvir. E nosso cabelo é muito bonito! Existem várias possibilidades de penteados. O meu trabalho é de conscientização mesmo. Eu procuro passar a confiança. Eu vejo os jovens negros a cada dia mais empoderados e isso não tem volta – disse Cássia, ao inglês The Guardian.

Cássia Marinho, a criadora do Iporinchê, já é uma daquelas personagens que marcam. Desde o início do salão, há 17 anos, sua proposta ia além das questões capilares. No início dos anos 2000, bem antes
do atual momento em que grande parte dos homens , principalmente, das mulheres negras estão buscando liberdade dos alisamentos e produtos que modificam a estrutura dos seus fios, ela já estava nesta trincheira. Saindo do forno está uma linha de produtos com a marca do salão para as crespas e cacheadas, a "Orinchê'

Na verdade, Cássia sempre quis unir a estética com a atitude, com o pensar quem realmente somos. Nas paredes, quadro do falecido ator Antônio Pompeu. Na prateleira, diversos livros. No calendário, rodas de conversas e lançamentos. O Iporinchê é uma mistura de espaço cultural e salão de belezas.

- A ideia era ter um espaço que enquanto a pessoa estivesse se embelezando, pudesse também adquirir cultura. Já fizemos várias coisas. Ciclo de debates, palestras, oficinas e já estamos no segundo ano do lançamento do nosso calendário.

Outra contagem do ano




A contagem dos 12 meses no salão começa em março. O mês dedicado no mundo todo a pensar as questões femininas foi o escolhido para dar início a contagem da autoestima. Em 2016, o calendário homenageou escritoras. Com Carolina Maria de Jesus na capa, de março de 2016 a março de 2017 clientes do salão apresentavam um livro e uma autora. Muitas clientes fiéis. Na festa de lançamento, tive a honra de sentar ao lado da premiadíssima Conceição Evaristo (prêmio Jabuti e Faz a Diferença do Globo), Sandra Almada, Lia Vieira, Helena Teodoro e de Ana Cruz.

Este ano, muitas ativistas em várias áreas deram rosto aos meses do ano ao lado de clientes da casa. Um debate sobre o ativismo no cotidiano da mulher negra fomentou um debate caloroso que ainda contou com uma “canja” das cantoras do grupo Razões Africanas, visto que a homenageada principal, a que ilustra a capa é tia Maria do Jongo da Serrinha, em Madureira.

- Se nós não falarmos de nós e não homenagearmos os nossos ícones, quem irá? Este é um momento em que podemos nos reunir, abraçar, falar. O Iporinchê é isso. É um lugar de fazer a cabeça...e o coração! – finalizou Cássia.

Iporinchê
Rua General Roca, 913 – Sala 706
Tel: 2572-2850




quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O resgate




Cinco vencedores do Prêmio Oliveira Silveira. Foto: Ana Lúcia Zanotelli
Há cerca de cinco anos eu decidi realizar um sonho da vida toda: contar a trajetória da minha família em um livro. Depois de uma pesquisa densa, muito caos, dor, mas, sobretudo muito prazer, consegui colocar o ponto final em ‘Água de Barrela’, uma história que começa na atual Nigéria, vem para a Bahia, o Rio de Janeiro e atravessa três séculos. Um resgate, uma catarse, um desabafo, um alívio e um pedido de benção para os meus mais velhos, pois quem não sabe de onde veio não acerta para onde vai. 

Assim que terminei, quase que num fôlego só inscrevi o texto no concurso literário Prêmio Oliveira Silveira - o primeiro da Fundação Palmares - e para a minha surpresa, ganhei em primeiro lugar.

Decidi escrever sobre a nossa vida real em um romance, quando percebi que ser negro no Brasil implicava em esquecimento e invisibilidade, mais que aos olhos dos outros,  diante do nosso próprio espelho de vida humana. O passado é um espinho encravado em nossa carne. Um incômodo. Não no sentido bíblico de tentação, mas no de angústia pelo desconhecimento das origens que estão impressas na pele e correndo nas veias.


Mais do que os arquivos sobre escravidão queimados nos tempos de Rui Barbosa, o país ― o branco e o negro ― incinerou deliberadamente o dia a dia miúdo dos que aqui foram escravizados. O Brasil dos brancos foi dominado pelo desejo sempre presente de “embranquecer” a população, vontade traduzida em sucessivas orientações políticas de estado.

Como dois exemplos históricos, entre muitos, lembramos a fala de ninguém menos do que a do então Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Oswaldo Aranha, em entrevista para a antropóloga Ruth Landes, em 1938, explicando o Estado Novo, gerado pela Revolução de 1930: "(...) o nosso atraso político, que tornou essa ditadura necessária, se explica perfeitamente pelo nosso sangue negro. Infelizmente. Por isso, estamos tentando expurgar esse sangue, construindo uma nação para todos, limpando a raça brasileira".

Depois, disposições oficiais, como as do Decreto-Lei nº 7.967, de 18/09/1945 (vigente até ser revogado apenas em 19/08/1980, pela Lei n° 6.815), cujo artigo 2° tinha o teor seguinte: “Atender-se-á, na admissão dos imigrantes, à necessidade de preservar e desenvolver, na composição étnica da população, as características mais convenientes da sua ascendência europeia (...)”.

O Brasil dos negros esqueceu-se de si mesmo, por uma questão muito simples: a escravidão era e ― apesar da evolução da sensibilidade humanista ou das ações afirmativas de todo gênero para a preservação da cultura e da ancestralidade negras ― continua sendo um duríssimo estigma. 

O ano de 2015 na vida nacional em diversos momentos se arrastou feito réptil que vai deixando uma peçonha no caminho. O veneno da violência, da intolerância e do retrocesso. No entanto, como diriam nossas avós, não há bem que sempre dure ou mal que nunca se acabe. Esse quinze terminou nos dizendo: tudo teve um motivo. 

O esforço pelo resgate da nossa identidade, a meu ver, foi um dos pontos altos destes 12 meses conturbados. Todo o movimento deflagrado pelas mulheres brasileiras em 2015 já é motivo de orgulho para todas nós que somos conscientes do que é ser mulher no Brasil, no mundo, hoje e sempre. O que dizer, por exemplo, da Marcha das Mulheres Negras? Nenhuma palavra possui força suficiente para descrevê-la.

Meu livro a Fundação Palmares irá publicar em 2016 e, posteriormente, alguma editora. Agradeço à presidenta Cida Abreu, a todos os membros da Fundação e ao corpo de jurados composto por profissionais do mais alto gabarito, pela oportunidade que nos deram de tirar nossa produção literária das gavetas. Em futuro próximo espero que muita gente possa ler e se emocionar. E que muita gente possa ser incentivada a também escrever. Qualquer lembrança é resgate. Devemos contar. Devemos falar. Não podemos deixar passar. Nossa hora é agora.


Personagens de 'Água de Barrela'. Minha bisavó, Damiana, e minha avó, Celina. Aniversário de 100 anos de Damiana, em 1988.

Foto de acervo familiar, proibida reprodução sem autorização

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O peso do levantamento: “Disseram que não iriam me patrocinar, pois preto não vende”



Foto: Arquivo Pessoal
Josélia Oliveira, 35 anos, tem voz pausada, muito bem articulada, é doce na fala e fera nas atitudes. Antes de chegar aos 30 passava dos 100 quilos, estava hipertensa, com problemas cardíacos e no caminho certo para o fim prematuro, pois entrava no grau dois de obesidade (o máximo é três). Com recomendações médicas para mudar de vida com urgência, Josélia obedeceu prontamente e, entre outras coisas, incluiu o esporte em sua vida. Caminhada? Natação? Corrida? Nada disso. Levantamento de peso.

- Comecei a fazer musculação com um pouco de medo e vergonha, mas quando completou dois meses eu tinha perdido 12 quilos! Fiquei tão empolgada que segui treinando e aí fui chamada para treinar mais sério e competir. Não parei nunca mais. Hoje tenho uma rotina rígida para me preparar para os campeonatos. 

 A estudante de administração, que com a prática esportiva mudou para a cadeira de educação física, enfrenta uma hora e meia todos os dias para sair do bairro carioca de Senador Camará e chegar a Escola de Levantamento de Peso Olímpico Aline Campeiro, no Engenho Novo; luta para se manter competitiva e em sua categoria - até 60 quilos - e coleciona os títulos de campeã brasileira de supino, campeã estadual de levantamento de peso básico, entre outros. 

Foto: Arquivo Pessoal
Josélia, assim como muitos, sempre teve que lidar com o racismo, mas na fase que estava com sobrepeso também precisou enfrentar a rejeição aos obesos e, desde que começou a levantar peso, sente os preconceitos contra as mulheres que fazem “esportes de homem”. Somado a isso tudo, o estigma que ronda a modalidade: Doping.

- Nós temos uma rotina muito intensa de treino. O desempenho é devido à disciplina na prática, na repetição, na alimentação e com a vida regrada. Dopagem existe em todos os esportes, mas não é da forma como as pessoas imaginam e não são todos os atletas. Mais uma vez o desconhecimento gerando preconceitos. Ainda associam força apenas aos homens. Nós, mulheres praticantes, ouvimos muitas coisas desagradáveis e machistas. Sempre nos associam à homossexualidade, como se isso fosse algum demérito. Mas a gente ignora e segue em frente. Essas ideias apenas serão quebradas com mais informação. Esporte é para o ser humano. Não tem essa de esporte para homem, para mulher... Todos podem. Não existe limitação. A pessoa tem apenas que se identificar com a atividade, se cercar dos cuidados médicos e começar. Não importa a idade, a cor, nada.
Foto: Arquivo Pessoal
 Em tempos tão esportivos, em que o Brasil sediou uma Copa do Mundo, está prestes a realizar uma Olimpíada e que este ano teve em Toronto, no Canadá, suas primeiras medalhas pan-americanas femininas no Levantamento de Peso (dois bronzes com Jaqueline Ferreira e Bruna Piloto) a busca por patrocínios continua a ser o calcanhar de Aquiles de grande parte dos atletas, mas se este competidor é mulher e se esta mulher for negra...

- Num evento de nutrição, que acontece regularmente aqui no Rio de Janeiro, em 2013, fui conversar com algumas empresas e de uma delas eu ouvi que não valeria a pena me patrocinar porque "preto não vende". A resposta foi muito ofensiva e eu sei que é isso o que muitas empresas pensam. O material é caro, tem as viagens... É muito duro conseguir apoio. Temos um desafio a mais porque o racismo existe. Isso faz com que muitas atletas desistam, pois é difícil custear. Consigo me manter no esporte porque tenho a ajuda de amigos e recebo doação de material. Uma escritora de São Paulo, por exemplo, me doou livros para revender e obter recursos para competir. Tenho uma amiga no site www.ateltasbrasil, que ajuda atletas que não tem patrocínio e também recebo algum auxílio por lá.


Prestes a coordenar o braço social do espaço gastronômico ‘Bele Bele Cubano’, que será criado pela empresa Tur Chefe América, do chefe de cozinha cubano Fernando Calderón Boris, para apoiar alguns atletas, Josélia se desdobra para concluir a faculdade de Educação Física com muitos sonhos para o futuro. 

Foto: Arquivo Pessoal
 
- Agora pretendo participar do Campeonato Sul-Americano e de outros campeonatos internacionais. Quero continuar no esporte que eu amo. Abracei o levantamento de peso. Olho a barra e os meus olhos brilham, então vou continuar me dedicando e buscando apoio. Gostaria muito de treinar crianças. No Brasil, em cada esquina tem uma escolinha de futebol, mas nem toda criança será o Neimar! Existem outros esportes. É preciso diversificar. A riqueza do Brasil é imensa também no campo esportivo.

Por superar tantos preconceitos e continuar na luta, Josélia, você é uma Flor da Cor!

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Estranho peixe




Bebê sírio na praia turca do resort turco de Bodrum. Foto: AFP
O mar depositou na praia um estranho peixe. Não possuía escamas, brânquias, nadadeiras. Tinha pele, pernas, braços, pulmões encharcados e era pequeno. Um bebê. A criança emborcada na praia turca de Bodrum, no mês de setembro de 2015, dá conta do esquisito cardume em que nos transformamos. Lançamo-nos ao mar em bandos fugindo da dor, da guerra e da morte para encontrar a dor, a guerra e a morte. O que nos motiva é a tênue e pálida esperança de trocar alguma destas palavras por solidariedade.

Solidariedade não. Empatia sim. Solidariedade traz sempre a sensação de algo de “cima para baixo”. Algo como “Veja como sou magnânimo! Estou sendo solidário com a sua tragédia, mas não faço parte dela”. Quase nunca essa palavra está bem posta. Já a empatia nos coloca no lugar daquele corpo virado de bruços na areia turca... e isto faz toda a diferença.

Sírios, sudaneses, nigerianos, haitianos, europeus de um modo geral, todos os povos do planeta! O estudo dos genomas nos diz que não existem separações entre nós, mas o mundo definitivamente não se resume a um seminário de biologia. Estranho peixe, estranhos cardumes que escapam do anzol de um lado do oceano para encontrarem arpões no destino final.

Viajamos a um lugar e de lá extraímos a força temperos para nossas comidas, fumos para nossos cinzeiros, café e chá para nossas xícaras, açúcar para nossos cafés e braços seqüestrados para produzir nossas riquezas. O que permanece depois da nossa passagem além da dor, da guerra, da morte e da vontade de seguir também pelo oceano e chegar neste lugar onde estão as comidas, os cafés, chás e açúcar...?  Ou ainda que nossos corpos não se desloquem, mas nossos ideais de liberdade e “solidariedade” viajam por satélite dizendo coisas que na prática não fazemos, mas a vontade de escapar da opressão que a falsa noção de fé ou de nação produz é tanta que do outro lado isso se torna verdade e aí ... “Homens ao mar!”

Há quase 80 anos um poeta escreveu e uma voz feminina imortal cantou*: “As árvores do Sul estão carregadas com um estranho fruto/ Sangue nas folhas e sangue na raiz...”

Hoje poderíamos cantar: Os mares do mundo são habitados por um estranho peixe...

Refugiados africanos no mar Mediterrâneo. Foto: Anistia Internacional


*O professor Abel Meeropol escreveu o poema Strange Fruits, em 1936, e Billie Holiday gravou em 1939. O poema faz alusão aos frequentes linchamentos e enforcamento de negros que ocorriam na época,  nos sul dos Estados Unidos.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

A Cor da Água: racismo e oportunidade para negros nas piscinas


Etiene Medeiros no Mundial de Kazan (Satiro Sodré/SSPress)
Etiene Medeiros no Mundial de Kazan (Satiro Sodré/SSPress)

Quando o cronômetro parou de rodar nas provas de natação de 50 m costas e 100 m peito do Mundial dos Esportes Aquáticos, encerrado no domingo (9), em Kazan, na Rússia, o mundo viu pela primeira vez uma brasileira e uma jamaicana no pódio da principal competição de natação depois da Olimpíada. Para além do novo espaço que abriram para o esporte feminino em seus países, outro fato, pouco citado, as une: são negras. Atletas raras em competições de alto nível da natação mundial. E por que isso seria relevante?



Uma rápida enquete com treinadores e atletas à beira das magníficas piscinas construídas no meio do gramado do estádio de futebol Kazan Rubin deu conta de que o tema é quente.

Matheus Santana, recordista mundial e campeão olímpico júnior em 2014, disse: “Na água todo mundo é igual”. Matheus falava da humanidade comum a todos, claro, mas a performance que faz um bater em primeiro lugar, e outro nem passar para a fase semifinal está condicionada a fatores no seco.

Dentro d’água tudo pode ser igual, mas fora certamente não, pois a natação é um dos esportes em que a tecnologia é a nota de corte. Ela dá o tom desde os trajes usados na hora da competição até a análise do movimento no pós-prova, passando por todo o leque de apoio multidisciplinar para que um atleta consiga colocar para fora todo o seu potencial e figurar entre os melhores do mundo. Afinal, o meio aquático não é o nosso habitat natural.

Não é preciso nenhuma pesquisa elaborada pra comprovar o que os olhos facilmente atestam. São muito poucos os atletas negros que se destacam na natação. Algumas teses falam que a estrutura óssea mais pesada, a tendência a desenvolver mais músculos do que gordura, enfim, o biótipo joga contra, ou melhor, afunda.
Muitos treinadores não têm uma opinião totalmente formada devido à carência de pesquisas sobre o tema, mas entre os atletas consultados a resposta é uma só: o problema é social e cultural.

Etiene Medeiros, 24 anos, a menina pernambucana que roda os braços para trás na água e vai colecionando títulos pelo mundo tem o pioneirismo no destino. Foi a primeira mulher brasileira medalhista nos Mundiais júnior, em piscinas curta e longa. Primeira recordista mundial. Também foi a primeira brasileira a ganhar o ouro da natação dos Jogos Pan-Americanos. É mulher, é negra e nordestina.

“Já pensei muito sobre isso. É claro que está relacionado com o acesso ao esporte muito mais do que qualquer outra coisa. Muita gente diz que isso [racismo] não existe, mas é claro que pesa. Natação é um esporte caro e para praticar é preciso ter acesso a lugares aos quais a população negra tem dificuldade de chegar. Tem muita coisa aí nesta questão. Minha mãe é negra e meu pai é branco, mas sempre fui muito conscientizada pela minha família, que me apoia e me estimula em tudo a chegar o mais longe possível. Para nós, essa base familiar é tudo”, falou Etiene, que tem tatuado no ombro esquerdo a palavra “ohana”, que significa, entre outras coisas, família, em havaiano.

Alia Atkinson, medalhista no Mundial de Kazan (Chan-fan)
Alia Atkinson, medalhista no Mundial de Kazan (Foto: Chan-fan)

“Brasil tem o racismo mais sem vergonha de todos”

A jamaicana Alia Atkinsons está nas raias pelo mundo há mais tempo do que Etiene. A atleta de 26 anos carregou a bandeira do país nos Jogos Pan-Americanos do Rio, em 2007, onde superou o recorde jamaicano dos 100 m borboleta.
Na Olimpíada de Pequim, em 2008, ficou na 25ª posição, mas a partir dos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara, em 2011, ela começou a subir ao pódio e, desde então, já tem na coleção uma medalha de ouro e três de prata em Mundiais em piscina curta, duas medalhas de prata em Jogos Pan-Americanos e agora, uma prata e um bronze no Mundial em piscina longa.

“Acho que é uma questão de popularização, de mídia. Quanto mais popular o esporte for, mais gente vai praticar e aí surgirão os talentos. Sei que existem teorias, mas particularmente não acredito em nenhuma delas.”

Curiosamente, a Jamaica de Alia foi o destino de Nicolas Oliveira logo após os Jogos Olímpicos de Londres, onde não passou das eliminatórias dos 100 m livre. Disposto a relaxar e repensar a vida, o nadador mineiro, que já esteve em cinco Mundiais e coleciona cinco medalhas de ouro e uma de prata em provas de revezamento dos Jogos Pan-Americanos, arrumou as mochilas e rumou para a terra de Bob Marley onde passou três, segundo ele, inesquecíveis meses. Ficou tão fascinado que nas próximas férias disse que é para lá que pretende seguir.


O nadador Nicolas Oliveira (Foto: Satiro Sodré/SSPress)
O nadador Nicolas Oliveira (Foto: Satiro Sodré/SSPress)

“Um lugar extraordinário. Brinquei com as crianças no mar e fiquei impressionado com a facilidade com que aprendiam e com que repetiam o que eu fazia. Oportunidade é tudo”, observou Nicolas.
Embora aparente sempre serenidade, Nicolas Nilo não tem meias palavras para expressar suas opiniões.

“O Brasil tem o racismo mais safado, mais sem vergonha de todos. É aquele escondidinho, disfarçado de outras coisas, camuflado. Por isso muita gente jura que não existe. O esporte não está fora disto. Ele sofre as mesmas coisas. Não é fácil chegar aos locais onde se pratica a natação num nível mais profissional. Não foi tão simples para mim, um cara da zona norte de Belo Horizonte, quando entrei no Minas Tênis, um clube da zona sul e super tradicional. Nunca passei por nenhuma situação explícita, mas acontecia lá o mesmo que acontece em toda a sociedade brasileira, ou seja, situações veladas, por vezes sutis, mas que tem um nome só”, disse.

“Tem quem diga que não sou negro. Uma vez vi uma entrevista do Mano Brown e me identifiquei porque ele falava da dificuldade que enfrentam as pessoas ‘misturadas’, porque o racismo no Brasil se dá pela cor da pele. Então a gente fica ali, no limbo”, brincou. “Mas somos negros e ponto final. Vivi dez anos nos Estados Unidos [Arizona] e uma coisa eu admiro na cultura deles é que as coisas são muito mais claras, e as pessoas se posicionam com muito mais convicção. Isso nos faz falta. Acesso e oportunidade são a chave.”

Caminhando calmamente pelo deck da piscina do Mundial de Kazan estava Anthony Nesty, o lendário nadador trinitino naturalizado surinamês que foi o segundo atleta negro na história a ganhar uma medalha olímpica na natação -antes dele, Enith Brighita, nascida em Curaçao e nadando pela Holanda, ganhou duas de bronze nos Jogos de Montréal-1976. 

Nos Jogos de Seul, em 1988, o americano Matt Biondi, favoritíssimo ao ouro, nem acreditou quando olhou o placar e viu seu nome em segundo. Nesty o derrotou por um centésimo nos 100 m borboleta. Em Barcelona-1992, ele voltou para levar o bronze na mesma prova. Nesty hoje é treinador e acredita numa combinação de fatores, mas nenhum ligado às características físicas.


O surinamês Anthony Nesty (Foto: Olympics.org)
O surinamês Anthony Nesty (Foto: Olympics.org)

“Acredito que é uma junção de fatores sociais e culturais. É um esporte muito caro comparando com outros como futebol, por exemplo, e a população negra está nas camadas mais pobres. Existem outras questões também como mídia. Por exemplo, se você pega uma menino de 11 anos no Brasil, o que ele mais vê? Futebol! Nos Estados Unidos, o que temos? Beisebol, basquete, golfe… A popularidade exerce um fascínio óbvio em todas as camadas da sociedade. Biótipo? Não creio”, analisou.

Matheus Santana, campeão olímpico júnior e recordista mundial da categoria começa agora a trilhar as competições absolutas mais “pesadas”. Estreou nos Jogos Pan-Americanos de Toronto, onde levou o ouro no time do revezamento 4×100 m livre. Seu técnico, Marcio Latuff, falou dos cuidados que tem com ele.

“Falando do Matheus, a gente tem que ter um cuidado muito grande, pois sabemos que os negros têm uma porção muscular maior do que a de gordura e é importante o atleta ter um pouco de gordura para que ele possa flutuar mais. No caso do Matheus, além disso, ele é portador de diabetes e a medicação também propicia o desenvolvimento muscular. É preciso atenção pra manter o equilíbrio, embora os velocistas sejam mais ‘secos’ que os nadadores de fundo. Mas tem o outro lado também, pois os talentos precisam de oportunidades para surgir, como foi o caso do Matheus, filho de funcionários dos Correios, que apareceu numa competição da empresa. Ele nasceu com esse talento, esse lado ‘peixe’. Se todo mundo tiver a chance, muitos podem chegar onde ele está”, disse.

Matheus não crê que os músculos sejam obstáculo. “É uma característica, mas não é uma coisa que impeça. Acho que é uma questão mais social mesmo. Aqui em Kazan a gente viu o Metella [Mehdy Metella] que abriu com um tempo excelente o revezamento francês que foi ouro, a jamaicana [Alia Atkinson] do estilo peito… Com o tempo isso vem mudando. Acho que falta incentivo em alguns países. Todo mundo tem que fazer a mesma força pra chegar na frente. É nesse sentido que digo que dentro d’água todo mundo é igual”, afirmou.

Natação para todos

 

O relator especial da ONU para as formas contemporâneas de racismo, Mutuma Ruteere, em novembro de 2014, conclamou todos os países representados na Assembleia Geral a tomar as providências para explorar o potencial dos esportes para deslegitimar discursos de superioridade racial e para disseminar mensagens de igualdade e de não-discriminação. 

As principais agendas da ONU para o esporte falam de auxílio para a redução da pobreza, educação universal, igualdade de gêneros, sustentabilidade ambiental, inclusão e promoção da paz.
A Federação Internacional de Natação (Fina) mergulhou de cabeça na proposta, colocando provas mistas em todas as disciplinas e criando um programa chamado “Swimming for all – Swimming for life”, comandado pela entidade junto a pesos-pesados como o Escritório das Nações Unidas para o Esporte para Desenvolvimento e Paz (UNOSDP), a Unesco, a Organização Mundial de Saúde (OMS), o Unicef e o Comitê Olímpico Internacional (COI).

O alemão Wilfried Lemke, conselheiro especial para o desporto, o desenvolvimento e paz do secretário-geral da ONU, Ban ki-Moon, foi à Convenção Mundial da Fina, em 2014. Todos estão atentos à necessidade de fomentar a natação nas nações em desenvolvimento, pois, para além das questões étnicas e competitivas, existe o fato inegável de que em um mundo em constantes transformações climáticas é necessário saber nadar.

“De acordo com a Organização Mundial de Saúde, o afogamento é a terceira principal causa de morte e lesões não intencionais em todo o mundo. O afogamento é responsável por um número estimado de 359 mil mortes a cada ano”, disse.

No próximo grande evento televisionado, pense que além dos minutos, segundos e centésimos, muita coisa corre na superfície da água de cada competição de natação.

Matheus Santana (Foto: Satiro Sodré/SS Press)


Publicado originalmente no http://esportefinal.cartacapital.com.br/racismo-natacao-negros/

sábado, 11 de julho de 2015

Sobre musas, preconceito, ofensas e esportes

Rafaela, primeira brasileira ouro mundial no judô. Foto: Christian Gaul
A cada quatro anos um ciclo se repete. Chegam os Jogos Pan-Americanos, no ano seguinte os Jogos Olímpicos e com esses dois megaeventos aparecem as “musas” inspiradoras. Tomadas da mitologia grega, não por acaso também o berço do olimpismo, essas figuras filhas de Zeus e Mnemosine dão o que falar na mídia esportiva.

O curioso é que em grande parte das vezes (claro, tem gente que curte e pede pra receber esse título) as “musas atletas” se incomodam com a alcunha.  Elas treinam absurdamente, se privam de muitas coisas, abrem mão de grande parte da juventude na labuta dos treinos, atingem resultados importantes e aí ... musas.

Quatro episódios de mulheres no esporte e a relação com a estética ao longo desses anos me chamam a atenção. Tudo polêmica, tudo nitroglicerina pura. O caso das nadadoras Mariana Brochado e Rebeca Gusmão , no Pan de 2007; da judoca negra Rafaela Silva, nos Jogos Olímpicos de Londres 2012 e agora o da saltadora Ingrid Oliveira, no Pan de Toronto. 

Mariana e Rebeca eram amigas. Acompanhei de perto as duas em muitas viagens com a delegação de natação. Não vou entrar no mérito da questão que baniu Rebeca do esporte. Não é esse o tema aqui. Para mim era curioso observar que apesar de próximas, a imagem de uma refletida na mídia era o oposto da figura da outra. Enquanto Mariana (apesar de nunca ter reivindicado isso!) recebia o tratamento da tradicional “musa linda”, Rebeca era tratada com desconfiança, como a “estranha”.  Quando Mariana não conseguiu a classificação para nadar os Jogos Pan-Americanos foi um dia para não esquecer e uma hora dessas ainda bolo o roteiro de um filme.


Mariana: Finalista olímpica em Atenas 2004. Foto: Satiro Sodré
As cenas aconteceram no Parque Aquático Julio de Lamare lotado, jornalistas apinhados na zona mista. A eleita pelos veículos desde os Jogos Olímpicos de 2004 para estrelar as galerias de fotos do Pan no Rio de Janeiro estava fora da competição.  Tive que correr para ver o que acontecia no vestiário, pois ela demorava demais para sair e os microfones estavam impacientes. Encontrei Mariana muito triste, olhos vermelhos, obviamente, era uma atleta e queria estar em ação no evento histórico em sua cidade. Mas havia o subtexto da história da “musa” como um espinho machucando fundo. Ela sabia que viriam com a mensagem da “mulher bonita e incompetente”. Entristecia-se, mas também se irritava.

Enquanto isso, Rebeca, a “não musa” andava de um lado para o outro dando ânimo, dizendo para que não desistisse jamais. E nadou feito fera naquela etapa da seletiva. No dia seguinte Mariana apareceu com uniforme de comentarista de uma emissora de TV. Deu a volta por cima em 24 horas e teve que provar matando seu leão diário ao longo de anos que não era “só um rostinho bonito”. Conseguiu, mas pagou um preço alto pelo preconceito e pelo rótulo carregado mais como fardo do que qualquer outra coisa. Rebeca se envolveu num estrondoso caso de doping, foi banida, tentou se matar três vezes, hoje é treinadora e se sente no direito de também ser...  bonita! Por que não?



Rebeca Gusmão. Foto: Satiro Sodré/SSPress
Com a judoca Rafaela Silva a coisa foi, literalmente, peso-pesado na misoginia, no racismo, no ódio de classes.  Muito longe dos padrões estéticos definidos pelos meios para que recebesse a faixa e a coroa de “miss esportes”, a moça não estava nem aí para isso, pois chegou como uma das favoritas a subir no pódio mais sonhado por um atleta.  Mas não foi além das oitavas de final. Não foi poupada pelos veículos. Não foi poupada pelos leitores. Nas redes sociais a frase “lugar de macaca não é no judô” foi o mais leve que leu. 

Recordando o ocorrido, Rafaela enfrentava a húngara Hedvig Karakas e tentou golpe que inicialmente lhe rendeu um wazari, mas, depois de averiguação dos juízes, foi eliminada acusada de golpe ilegal. Também não entrarei no mérito da questão que levou a eliminação de Rafaela dos Jogos de Londres, mas é incrível como no Brasil errar parece não ser coisa de humanos e se o erro vier de uma mulher a desumanidade triplica, se vier de uma mulher negra o linchamento é elevado a enésima potência. 

Rafaela após vitória no Campeonato Mundial
O sangue de lutadora subiu. Ela foi pras redes, xingou, esperneou, foi novamente xingada por isso... Como diz por aí, a coisa foi babado. Um ano depois, em agosto de 2013, Rafaela Silva, a moça negra saída da Cidade de Deus no Rio de Janeiro, formada judoca num projeto social deu o troco conquistando o primeiro ouro feminino para o país em um Campeonato Mundial de Judô. Wazari e Ippon no preconceito. Resultado peso-pesado para a história do esporte nacional.

“Essa medalha é uma resposta para o pessoal que me criticou e que falou que lugar de macaca não era no judô, que eu tinha que caçar outra coisa para fazer. E hoje estou aqui mostrando que não depende da cor, nem do dinheiro, de nada. Depende é da garra e da vontade que você tem para ir buscar essa medalha" - desabafou na ocasião.

E agora, minha gente, como o ciclo sempre se cumpre temos uma nova história. Ingrid de Oliveira, moça do subúrbio carioca, que vem se destacando desde os 17 anos nos saltos ornamentais acabou de receber a faixa de musa brasileira do Pan de Toronto e já está no pelourinho por um salto errado, vejam bem, um único salto errado nas eliminatórias da prova e que não a tirou das finais! Pecado mortal na terra dos machos infalíveis, ela tirou fotos de maiô e seu belo corpo apareceu. Creio que não dá pra praticar saltos ornamentais com outra vestimenta... ou dá?!  As galerias de fotos nos sites e blogs e, o pior de tudo, os comentários são de arrepiar. Ironias a parte, o fato é que passou de “a gostosa” para “a gostosa incompetente”. Mariana Brochado teria muito que comentar a respeito...

Tudo isso aconteceu com Ingrid no espaço de três dias, antes mesmo da cerimônia de abertura da competição. Como os Jogos Pan-Americanos de Toronto estarão inundando a mídia até o próximo dia 26, quem saberá o que ainda vem por aí. E mais, ano que vem acontece por aqui o movimento mais importante nesta roda: Os Jogos Olímpicos.

Ingrid Oliveira, quinto lugar nos Jogos Olímpicos da Juventude. Foto: Satiro Sdoré/SS Press

Que consigamos ser citius (mais rápidos), altius (mais altos) e fortius (mais fortes) também na luta contra o preconceito.



terça-feira, 12 de maio de 2015

Vice-reitora Ana Dulce: “Quero fazer a diferença”

Ana Dulce dos Santos
Era uma vez uma moça criada no subúrbio carioca de Bangu e que se deslocava quilômetros todos os dias para freqüentar a universidade no bairro da Tijuca. Um dia, já formada em processamento de dados, foi convidada por uma conhecida que lecionava em um instituo angolano para também ensinar na instituição. Ela reuniu forças para deixar a mãe já diagnosticada com câncer aos cuidados de familiares e partir para o continente africano, para um país recém saído de uma sangrenta guerra civil, para conseguir mais recursos e custear seu tratamento. Foi assim que Ana Dulce dos Santos foi parar em Luanda em 2002, a princípio para ficar um ano, e hoje, mais de uma década depois, é vice-reitora de Assuntos Acadêmicos da Universidade Privada de Angola - UPRA.


- Nós somos independentes de Portugal há 193 anos. Angola se tornou independente há apenas 40 anos. Então é compreensível que muita coisa ainda esteja por fazer, por construir. Para mim foi difícil no início. Tive alguns choques culturais, mas hoje estou completamente adaptada. Quase todo mundo que está longe tem uma imagem da África totalmente errada, muito estereotipada. Algumas pessoas perguntavam: "Você vai pra lá?! Mas lá tem universidade?" – contou.
A Universidade Privada é uma jovem, como jovem é o país independente. Há 13 anos o instituto virou Universidade e hoje tem cerca de 3.200 alunos, 200 docentes e campus em Luanda, Cabinda, Lubango e Namibe. A instituição oferece 14 cursos: Arquitetura, Engenharia Civil, Engenharia de Informática, de Gestão, e de Sistemas Informáticos, Comunicação Social, Gestão e Contabilidade, Relações Internacionais, Turismo e Gestão Hoteleira, Ciências Farmacêuticas, Enfermagem, Fisioterapia, Odontologia e Psicologia Clínica.

Ana Dulce fez parte desse processo de transição, assim como acompanha a Angola em constante transformação, já que pôs os pés no país apenas três dias depois da morte do fundador e líder da UNITA, Jonas Savimbi.

- Eu cheguei no dia 25 e ele tinha morrido no dia 22 de fevereiro de 2002. Acompanhei bem toda a mobilização em torno disso, a assinatura dos acordos de paz... Foi muito impactante e um momento importante demais para os angolanos.
A União das Populações de Angola (UPA), o Partido Democrático de Angola (PDA), o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) eram forças que atuaram no processo de independência de Portugal, em 1975, e que protagonizaram a Guerra Civil pelo poder no país que se estendeu, com intervalos, de 1975 até 2002. O conflito se transformou num terreno de batalha substituto durante a Guerra Fria e contou com a intervenção das nações diretamente ligadas a ela como Estados Unidos, União Soviética, Cuba e África do Sul.
Jonas Savimbi
O MPLA conseguiu a vitória em 2002, mas ao custo de mais de 500 mil mortes e mais de 4,28 milhões de pessoas que foram obrigadas a se deslocar dentro do território nacional. Uma crise humanitária sem precedentes no país. Em 2003, a Organização das Nações Unidas (ONU) estimou que 80% dos angolanos não tinham acesso a assistência médica básica, 60% não tinham acesso à água potável e 30% das crianças angolanas morriam antes dos cinco anos de idade, com uma expectativa de vida total nacional de menos de 40 anos de idade.

Formatura UPRA

- Eu cheguei ali naquele momento tão delicado, com tudo muito vivo ainda. Hoje vejo que é uma sociedade que está se esforçando de forma incrível para se recompor, para melhorar os índices de educação. As pessoas estão mais críticas e procurando o que é melhor. Lá temos o Ministério da Educação, que é responsável até o ensino médio; e o Ministério do Ensino Superior, que se encarrega da graduação, pós-graduação, etc. A maioria dos estudantes que se formam no Brasil ou em outros países retornam, contribuindo assim neste esforço de crescimento. O ensino por lá tem muita cooperação cubana, povo que tem excelentes relações com Angola desde a guerra de independência, e os angolanos tem um carinho especial também com o Brasil porque foi o primeiro país a reconhecê-los como nação independente. Não existem muitos docentes, então os profissionais se dividem em muitas instituições. Eu comecei o mestrado de Ciências da Educação e estou pensando em outros cursos. Temos protocolos de cooperação, intercâmbio com universidades brasileiras, como por exemplo a USP (Universidade de São Paulo) e a UFBA (Universidade Federal da Bahia) – explicou.

Como é sabido, o tráfico atlântico por séculos arrancou angolanos de suas terras para exportá-los como escravos para as Américas. Esse movimento de retorno as origens não escapou a percepção da vice-reitora.

- Quando passei no museu Nacional da Escravatura, em Luanda, senti um aperto. Uma angústia. Fica próximo ao mar, de onde partiam para um destino incerto. E hoje estou eu aqui. Todos sempre foram muito calorosos comigo. Quando minha mãe falceu e viajei para o Brasil, passei um dia inteiro recebendo ligações de Angola. Não sei se ficarei para sempre ou se retorno um dia para o Brasil, mas quero construir algo. Mesmo que seja uma pequena parte, quero ajudar a melhorar coisas que ainda são deficientes e fazer a diferença, ser uma referência.

A África não está apenas no sangue e características deixadas pelos ancestrais. Hoje Ana tem nova motivação para trabalhar e desejar com afinco que Angola e Brasil cresçam. Ela atou um laço mais forte ligando as duas nações: o filho N’Zoji David. O primeiro nome, no idioma quimbundo significa ‘sonho’. Então sonhe alto, flor da cor Ana Dulce!

Ana Dulce e N'Zoji